• Fibras e metabolismo lipídico

      Nutr. Rosana P. Costa
      Dr. Daniel Magnoni
       
      Há muitos anos relaciona-se diretamente as fibras com a prevenção e tratamento das dislipidemias.

      Nos anos mais recentes, inúmeras ações de medicina preventiva, procuram identificar procedimentos dietéticos que possam, de maneira barata e amplamente aceitável pelos costumes culturais, ampliar o leque de alimentos funcionais com relação ao diagnóstico dislipidemia.

      A ocorrência de doenças coronarianas tem levado muitos pesquisadores a realizar estudos comparativos com populações menos atingidas por esses problemas. Os resultados encontrados têm demonstrado existir uma relação entre a prevalência crescente dessas doenças com o consumo de dietas com menor conteúdo de fibras.

      As dietas ricas em gordura saturada e colesterol são consideradas de efeito aterogênico, por elevarem os níveis plasmáticos de colesterol e triglicérides, portanto, fator de risco na etiologia da doença isquêmica cardiovascular.

      A hipercolesterolemia é um dos fatores de risco mais importantes no desenvolvimento da doença coronariana. Valores de colesterol sanguíneo acima de 200mg/dl aumentam, de forma significativa, o risco de cardiopatia isquêmica.

      Um dos principais estudos que demonstrou a relação entre consumo elevado de gordura saturada e colesterol e risco maior de desenvolver doença coronariana foi o Seven Countries Study (Estudo dos Sete Países) de Keys.

      A partir desse estudo, foram identificados outros componentes alimentares que têm ligação positiva ou negativa com risco de doença coronariana, entre eles, a quantidade e composição das gorduras, proteínas, carboidratos, vitaminas, minerais, álcool, e produtos fitoquímicos encontrados nos alimentos, como: proteína da soja, certos ácidos graxos insaturados e as fibras solúveis que afetam as concentrações de colesterol plasmático.

      Embora as fibras solúveis e insolúveis protejam o organismo contra várias patologias como diabetes mellitus, doença coronariana e isquêmica do coração, obesidade e os mais diversos distúrbios do aparelho digestivo, as pesquisas mais recentes têm enfocado os efeitos hipocolesterolêmicos das fibras solúveis. Além disso, também podem influenciar diretamente ou indiretamente outros fatores ligados à doença cardiovascular, como, por exemplo, hiperinsulinemia, hiperglicemia, hipertensão, obesidade e fatores hemostáticos.

      A ação das fibras solúveis no controle do colesterol está relacionado pelas propriedades físico-químicas presente, ou seja, na retenção de água, solubilidade aparente, capacidade de ligação e degradação.

      O farelo de aveia é o alimento mais rico em fibras solúveis e com maior capacidade de diminuir o colesterol sangüíneo. É proveniente de um processo mecânico da separação do grão de aveia e esta por sua vez, faz parte do grupo de cereais, como o arroz, trigo e milho.

      Estudos com farelo de aveia demonstram forte ação hipocolesterolemiante, provavelmente pelo seu conteúdo de goma onde observou-se diminuição do colesterol total e LDLc. Este efeito pode ser atribuído a absorção de ácidos biliares, após sua desconjugação pelas bactérias intestinais, sendo excretado pelas fezes, diminuindo o pool de ácidos biliares no ciclo êntero-hepático; ou aos ácidos graxos de cadeia curta, produzidos pela degradação bacteriana das fibras no cólon, os quais, também, inibiriam a síntese de colesterol hepático e incrementariam a depuração de LDL.

      Anderson e Gustafon estudaram oito homens hipercolesterolêmicos para determinar os efeitos da suplementação de farelo de aveia sobre os níveis de lípides plasmáticos. Os pacientes consumiram alternadamente uma dieta controle e uma dieta suplementada com farelo de aveia, durante 10 dias. Ambas dietam continham quantidades semelhantes de calorias, proteínas, carboidratos, gorduras e colesterol, diferindo apenas na inclusão de 100g de farelo de aveia. Os indivíduos que receberam a dieta suplementada, houve uma redução média de 13% nos níveis de colesterol plasmáticos, 14% nos níveis de LDLc e sem alteração nos valores de HDLc.

      Outras combinações de fibras solúveis também foram avaliadas. Tai et al investigaram o efeito de goma guar e psílio em indivíduos que consumiram dieta com baixo teor de gordura suplementada com 16,5 g de fibra ou placebo. O grupo que recebeu dieta acrescida de fibras, reduziu em 3,2% os níveis de LDL-c e 5,5% o colesterol total, sem alteração no HDL-c e triglicérides.
      Em 1990, uma análise de ensaios clínicos utilizando goma guar como agente hipolipemiante demonstrou que houve uma redução de 11% nos níveis de colesterol total.

      A goma guar é o polissacarídeo de reserva nutricional das sementes de leguminosas. Da mesma forma que as outras fibras, não pode ser digerida no intestino delgado. Acredita-se que a sua propriedade de aumentar a viscosidade de conteúdo gastrointestinal, é a principal responsável pelo retardo da absorção de nutrientes no intestino delgado. É considerada também altamente eficaz na diminuição da hiperglicemia pós-prandial, do peso corporal e das concentrações de colesterol, tanto em indivíduos obesos como em diabéticos e também do aumento da sensibilidade à insulina, incrementando a atividade da lipase - lipoprotéica (PL), possibilitando a redução das lipoproteínas e dos ácidos biliares.

      Uma meta-análise mais recente sobre os efeitos redutores de colesterol do psílio relatou redução de 6,7% no LDL após consumo médio de 10,4 gramas de psílio durante 8 semanas.

      Embora a absorção de colesterol seja alterada por várias fontes de fibras, nem todas produzem o mesmo efeito. A lignina tem efeito hipocolesterolêmico, enquanto a celulose pouco altera o metabolismo dos lipídeos. Já o consumo de pectina demonstra resposta positiva na redução dos níveis de colesterol.

      A pectina é um polímero gelacturônico presente na casca branca interna de várias frutas, principalmente as maçãs e as frutas cítricas. Vários estudos têm demonstrado seu efeito hipocolesterolêmico na redução dos níveis séricos e hepáticos de colesterol total em indivíduos sadios.

      Pesquisas realizadas por Baig e Cerda à respeito das interações que existem entre a pectina e as lipoproteínas do plasma, concluíram que quando suplementada na dieta, acarreta redução dos níveis séricos e hepáticos de colesterol, tanto em seres humanos como em animais de experimentação.

      Existem algumas teorias para explicar a ação das fibras sobre o metabolismo das gorduras.

      A absorção de água, pelos diferentes tipos de fibras, produz uma diluição que altera a digestão e absorção das gorduras.

      Estudos realizados sobre a modificação da flora intestinal tem levado a crer que isto pode ocorrer em parte devido à um aumento da água das fezes, o que também contribuiria para a maior diluição do conteúdo fecal e consequente alteração na digestão e absorção de gorduras.

      A absorção intestinal de colesterol depende da disponibilidade de sais biliares e fosfolipídeos para a formação de micelas. Se os níveis de ácidos biliares estão reduzidos, o resultado seria a consequente queda na formação de micelas.

      As fibras se ligam aos sais biliares no intestino, diminuindo sua reabsorção, o que resulta em menos colesterol disponível no fígado para a síntese de lipoproteínas. As fibras solúveis são quase completamente fermentadas no cólon, produzindo ácidos graxos de cadeia curta os quais podem inibir a síntese hepática de colesterol e incrementar a depuração de LDL.

      Os mecanismos de ação ainda permanecem imprecisos, mas devem estar envolvidos com sua viscosidade e capacidade de proteção da muc

       

      Fonte: http://.nutricaoclinica.com.br

      Atualizado em: 14/04/2010