Coração Sarado
Com o peito de quem tem a doença, não se brinca: atacado por várias frentes ao mesmo tempo, ele precisa do exercício físico para fazer seu trabalho direito.
Por Tito Montenegro
Fonte: Especial Diabete da Revista Saúde é Vital! Nº60
Imagine um delinqüente comum, aquele bandido que bate carteira, assalta no sinal de trânsito, arromba os carros para levar o aparelho de som, aponta uma arma para levar a bolsa de uma mulher. Tipos assim são perigosos, sem duvida, mas só até um certo ponto. Perigo, mesmo, é quando esses infratores se juntam em bandos de três e atacam com armas pesadas, atirando em quem aparece pela frente, e fogem, cantando pneus, disparando tiros. É o crime organizado.
Mas, você pode se perguntar, o que isso tem a ver com diabete? Bem, imagine que essa doença seja um delinqüente. Outro é o colesterol elevado. A pressão alta também tem maus antecedentes. Junte todos numa gangue, acrescente o malfeitor conhecido como obesidade e você terá uma combinação explosiva. Tome-se um exemplo: na população em geral, em torno de 35% das mortes são por doenças cardiovasculares. Entre os diabéticos, esse percentual fica por volta dos 70%. Os números, alarmantes, se devem a uma triste constatação biológica: a aterosclerose, uma doença das artérias que pode levar ao infarto e ao derrame, é muito mais severa no diabético. “Ele tem mais chance de contar com outros fatores de risco associados, que, juntos, fazem com que esse distúrbio seja mais agressivo”, justifica o cardiologista Raul Dias dos Santos, do Instituto do Coração, em São Paulo. “Para ter uma idéia, uma mulher diabética tem cinco vezes mais probabilidade de sofrer um infarto do que uma sem a doença. No homem, esse risco é duas vezes maior.”
Dados como esses desvendam uma relação antiga, já bem conhecida dos médicos, entre o diabete e os problemas do coração. É um perigo que não pode ser menosprezado. Por isso mesmo, quando se fala em riscos cardíacos, a ênfase na mudança de estilo de vida deve ser redobrada. A dieta equilibrada e a prática de exercícios físicos são imprescindíveis para reduzir o risco de infarto e derrame.
Mais uma prova disso foi um estudo recente realizado na Northwestern University, em Chicago, nos Estados Unidos. Depois de avaliar 15 mil pessoas, constatou-se que as que tinham as maiores taxas de batimentos cardíacos em repouso apresentavam chances bem maiores de desenvolver o diabete na velhice (e, com a doença, todos os riscos associados). Entre as possíveis explicações para esse prognóstico está a baixa capacidade cardiorrespiratória. “Pessoas que se exercitam mais tendem a ter melhor preparo físico, o que se reflete na taxa menor de batimentos cardíacos”, afirma a coordenadora da pesquisa, Mercedes Carnethon. Isso porque, acostumado ao esforço, o coração de um sujeito bem condicionado é mais potente e, com uma batida, consegue bombear muito mais sangue do que o de alguém sedentário.
A pesquisadora também explica que a atividade física atua em outras direções: faz a pessoa perder quilos e melhora a resposta do sistema nervoso autônomo, responsável, entre outras coisas, por controlar a pressão arterial e a freqüência cardíaca. No diabético, ela costuma ficar descompassada. Em uma frase: para prevenir (ou controlar) o diabete, faça exercícios. Sempre com orientação, claro.
Para entender melhor tamanho alvoroço em torno da atividade física, é preciso conhecer o que está em jogo. Quando se fala em diabete tipo2, adquirido em geral na idade adulta – embora ele esteja se tornando um mal não tão raro em crianças -, a questão invariavelmente passa pelo estilo de vida que, muitas vezes, leva ao que se chama de síndrome metabólica,um conjunto de problemas associados, especialmente a obesidade abdominal, o colesterol elevado, a pressão alta e a glicemia fora de controle. É a tal gangue da qual falamos no inicio. “Por isso, só controlar a glicemia não resolve”, alerta o cardiologista Jorge Pinto Ribeiro, chefe do serviço de cardiologia do Hospital Moinhos do Vento, em Porto Alegre. “O fundamental é interrompermos a epidemia de obesidade, que no fundo também significa epidemia de diabete.”
E, para isso, o melhor remédio é, realmente, mexer o corpo – desculpe a insistência. “O exercício bem feito tem o mesmo resultado de queda na glicemia que os melhores medicamentos para controlar o diabete tipo 2”, afirma Raul Santos. Isso sem falar nos benefícios que traz ao estado emocional. Depressão, estresse e ansiedade, aliás, podem atrapalhar bastante a vida de quem já tem as artérias parcialmente entupidas. E, para quem não o tem, também vale: “A perda de peso e a atividade física aeróbica regular são capazes de reduzir em quase 60% a incidência de diabete em indivíduos predispostos”, afirma a endocrinologista Beatriz Schaan, do Instituto de Cardiologia do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre.
Sim, a prevenção é fundamental. Até porque, em quem é diabético, a aterosclerose ocorre de forma difusa, ou seja, é mais espalhada dentro das artérias. Isso complica os procedimentos que são rotineiros nos hospitais, como as pontes de safena e a colocação de stentes. “Além disso, o risco de esse paciente voltar a ter um entupimento de artéria é maior”, afirma Jorge Pinto Ribeiro. “Ou seja, as armas que temos para contra-atacar os problemas caríacos podem não funcionar tão bem um paciente com diabete.” Mais complicações, menos poder de fogo na artilharia conta a doença. São muitos os fatores de risco, por isso devem ser múltiplos os cuidados.
Pegue leve
O diabético precisa de atividade física, mas o acompanhamento médico é fundamental – por causa dos riscos cardiovasculares, o esforço excessivo pode transformar o antídoto em veneno. Os exercícios mais indicados são os aeróbicos, como caminhada, corrida, natação e bicicleta, que colaboram para a redução de peso e melhoram a condição cardiorrespiratória. E, claro, é fundamental conhecer o próprio corpo para regular as doses de insulina antes, ao longo e depois da atividade física.
Estresse
Nada do que se falou até aqui faz sentido se essa fera ficar à solta. Procurar levar uma vida mais tranqüila ajuda bastante. Basta lembrar que o estresse crônico provoca uma contração constante dos vasos sanguíneos, efeito causado pela liberação de um hormônio chamado adrenalina. O resultado, em muitos casos, é a elevação da pressão arterial. Em quem já tem os vasos um tanto comprometidos, o sufoco provocado pela ansiedade pode ser o estopim de um infarto ou de um derrame.
Colesterol
Se cuidar da alimentação é algo básico, evitar as gorduras seria o básico do básico. Mas alguns especialistas defendem que, para os diabéticos, apenas a dieta saudável não costuma ser suficiente. “A partir dos 40 anos, eles deveriam cogitar o médico a possibilidade de tomar estatina, um remédio para derrubar as taxas de LDL”, opina, categórico, o cardiologista Raul Dias dos Santos. “ A idéia é ter um tratamento mais intensivo para diabéticos”, defende. A meta, segundo o especialista, é manter esse vilão abaixo de 100 miligramas. Se o paciente já tem problemas nas arteiras, a recomendação seria ainda mais rígida: o colesterol ruim não poderia passar de 70 miligramas.
Pressão Alta
O controle da pressão é fundamental para o diabético evitar problemas cardíacos. “Tanto que, para eles, os critérios para considera-lo hipertenso são bem mais rígidos”, conta o cardiologista Jorge Pinto Ribeiro. Enquanto pessoas sem a doença devem ficar abaixo dos famosos 9 por 14, ou 90 por 140, como os médicos preferem, recomenda-se que os diabéticos não passem de 85 por 135. Isso porque a pressão alta aumento, e muito, os riscos de um infarto ou um derrame quando a glicose já anda nas alturas. Muitos diabéticos precisam lançar mão de medicamentos antihipertensivo. Mas a atividade física, outra vez, contribui para controlar o problema – e, às vezes, até dá conta do recado sozinha.
Cigarro
Essa vale pra todo mundo (novamente, ainda mais para os diabéticos). O fumo é um importante fator de risco para as doenças do coração. Se a associação de diabete com a obesidade ou a pressão alta já causa um estrago e tanto, imagine tudo isso encoberto de fumaça. Quanto maior o período de tabagismo, mais destruídas tendem a estar as artérias. Mas sempre vale a pena parar. E descobrir-se diabético emotivo de sobra para tomar essa atitude. Hoje a medicina oferece várias maneiras para ajudar quem quer largar o vício. De novo, mais um ponto a favor da atividade física: quem pratica regularmente algum esporte tem duas ou até três vezes mais chances de conseguir se afastar dos cinzeiros.
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