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Apenas três noites de sono ruim já atrapalha a capacidade natural de controle da glicemia

Por Michelle Veronese
Fonte: Especial Diabete da Revista Saúde é Vital! Nº60

Não há nada de doce em um uma noite mal dormida. O dissabor é tanto que o corpo, ressentido, dispara vários alarmes. Estresse, mau humor e dificuldades de concentração são os mais conhecidos. No entanto, há sinais bem mais sutis e perigosos – e aqui se trato dos altos e baixos da glicose. Embora os especialistas já soubessem que a eficiência da insulina é menor em pacientes com insônia crônica, uma pesquisa publicada no início deste ano demonstra que bastam três noites ruins para causar um estrago considerável na absorção do hormônio pelas células.

Armados de buzinas, pesquisadores da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, tiraram o sossego de um grupo de voluntários que tentavam dormir em paz durante a madrugada. A cada vez que entravam no sono profundo, porém,.o barulho dos cientistas os fazia voltar para o sono leve – sem, no entanto, chegar a acordar. No fim,o número de horas que esses pobres coitados repousaram foi o mesmo do padrão normal dos pacientes. Ainda assim, após as tais três noites, a maioria deles apresentou algum grau de resistência à insulina. “É a primeira vez que notamos um efeito negativo sobre esse hormônio em um período de tempo tão curto”, comenta Dalva Poyares, coordenadora do Instituto do Sono, ligago à Universidade Federal de São Paulo.

Essa não é a primeira evidência de que a relação sono/diabete é pra lá de melindrosa. “Os estudos epidemiológicos já haviam mostrad que dormir pouco tem correlação com a obesidade,um fator de risco para a doença”, lembra Márcio Mancini, endocrinologista do Hospital das Clínicas de São Paulo. Tudo leva a crer que o sono ruim interfere na secreção de dois hormônios relacionados à fome. Aumenta a quantidade de grelina, a responsável por disparar a vontade de comer, e faz cair os níveis de leptina, que informa ao cérebro quando estamos saciados. Resultado: se dormimos mal, pulamos da cama famintos.

No estudo de Chicago, porém, não se definiu o que desencadeou a resistência à insulina. Mas, quando as pessoas voltaram a dormir bem, sem ninguém tocando buzinas por perto, o problema desapareceu. A conclusão é simples: além da dieta e dos exercícios regulares, fazer as pazes com o travesseiro é um passo importante para prevenir e controlar o diabete.

De longe, o maior fantasma das noites dos diabéticos se chama hipoglicemia, uma complicação que aparece quando as taxas de açúcar no sangue caem bruscamente, ficando abaixo do limite mínimo de 70 miligramas por decilitro de sangue. Nessa situação, as células recebem glicose suficiente e ficam sem combustível para trabalhar. “Geralmente, a hipoglicemia ocorre quando o diabético não comeu o suficiente ou aplicou uma dose muito elevada de insulina”, conta a endocrinologista Denise Reis Franco, da Associação Brasileira de Diabete Juvenil. Durante o dia é fácil identificar o problema, que vem acompanhado de uma bateria de sintomas – suor, tontura, palpitações e visão turva. De madrugada, é bem mais difícil perceber que algo está errado. “Os pacientes têm medo de não acordar a tempo para corrigir a situação”, observa Vivian Ellinger, coordenadora do núcleo de diabete da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. Pudera: se não é tratada a tempo, a hipoglicemia se agrava e, em último caso, levar o paciente à morte.

Mas, calma lá, nada de pânico. Se o diabético segue as recomendações médicas, o risco de a glicemia cair a tal ponto é mínimo. A cartilha de cuidados se resume em comer na hora e na quantidade certas, fazer o teste de ponta do dedo (em geral são quatro medições por dia) e aplicar as doses exatas de insulina (ou tomar os medicamentos recomendados nas doses corretas). Antes de dormir, um lanche saudável – uma barra de cereal ou uma fruta- afasta de vez a ameaça noturna.

Outro cuidado envolve as atividades físicas. Muita gente não sabe, mas o esforço exagerado pode desencadear a quedas brusca nas taxas de glicose até 24 horas depois do exercício. Trata-se da hipoglicemia retardada. “Até mesmo uma caminhada longa ao supermercado pode causar a hipoglicemia noturna se o esforço foi intenso e não fizer parte da rotina do diabético”, avisa Denise. Nesse caso, faça um lanche antes de qualquer atividade física para compensar o gasto energético.

Como não somos máquinas programáveis, nosso organismo pode entrar num descompasso, mesmo com todo o zelo do mundo. Por isso, os especialistas sugerem fazer os testes de ponta de dedo também no meio da madrugada, duas vezes por mês, por volta das 4 horas da manhã – nesse horário, os níveis de glicose ficam mais baixos. “A freqüência dessa medição dependa da história de cada um”, diz Vivian. Se o resultado ficar abaixo de 70mg/dl, faça um lanche noturno e, pela manhã, relate o problema ao médico. Se os testes revelaram que as taxas estão controladas, relaxe e durma bem. Seu corpo vai agradecer a boa noite de sono com mais saúde.

CADA UM É UM

O ritmo biológico varia de pessoa para pessoa.
Você acorda novo em folha quando dorme das 23 às 6 horas, mas pode não se sentir tão bem ao descansar da 1 Às 8 horas. São sutilezas assim que fazem toda a diferença – e devem ser respeitadas. Esqueça a idéia de que todos precisam de oito horas diárias de sono. “O que vale é acordar cm disposição, dormindo muito ou pouco”, ensina Dalva Payares. Observe, portanto, em quais períodos do dia você costuma se sentir com mais energia. Se fica meio lento de manhã, melhor não sobrecarregar o corpo nem a mente nesse horário. Deixe a academia para o intervalo do almoço, por exemplo. Já se o rendimento cai à noite, dispense as atividade noturnas e vá cedo para a cama.

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