Sem tirar o sabor da infância
Ninguém quer acabar com a graça da criançada, como você verá a seguir. Só é preciso deixar claro: a dupla sedentarismo e excesso de gordura pode antecipar à beça a chegada do diabete tipo 2
Por Cida de Oliveira
Fonte: Especial Diabete da Revista Saúde é Vital! Nº60
Pense numa brincadeira dessas bem sapecas. Esconde-esconde, pega-pega, queimada, amarelinha... Agora, veja com o que os pequenos à sua volta se divertem pra valer: videogame, computador e televisão, certo? E pensam três vezes diante da idéia de levantar o bumbum da poltrona, largar o controle remoto ou o joystick para correr atrás de uma bola – a bola, aliás, anda perdendo de goleada.
Os novos hábitos levam a meninada a torrar pouquíssimas calorias que consomem todos os dia – e, diga-se, elas andam obtendo muito mais energia do que as gerações anteriores. No cardápio de hoje, em vez do tradicional arroz, feijão, carne e salada, alimentos industrializados, frituras e fast food conquistam cada vez mais os paladares juvenis.
Com essa juventude glutona e chegada em um sofá, o que se viu nos últimos 25 anos foi a taxa de obesidade infantil triplicar. A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia estima que 15% das crianças brasileiras sejam obesas. Alguns especialistas são mais pessimistas e apostam que esse índice esteja na casa dos 30%. Diferentemente do diabete tipo 1, que quase sempre se manifesta na infância, o tipo 2 antes era considerado um mal de gente grande, por assim dizer – basta lembrar que no passado o problema era rotulado de diabete senil porque só costumava dar as caras na idade avançada. Ah,mas esse conceito também é coisa de antigamente... Pena.
Como a gordura corporal está associada ao aparecimento da doença, os pequenos gorduchos viraram um alvo fácil. Nos Estados Unidos, quase metade dos casos diagnosticados na moçada de 6 a 17 anos é do tipo 2 – até o começo dos anos 1990, eram apenas 4%. Se não se cuidarem, as novas gerações de brasileiros seguirão pelo mesmo caminho. “Há 15 anos, eu nem sequer via uma criança com essa forma de diabete”, lamenta o endocrinologista Balduíno Tschiedel, diretor-presidente do Instituto da Criança com Diabetes, em Porto Alegre. “Hoje, três em cada 100 crianças flagradas com a doença no país têm o tipo 2”, revela.
Se nesses casos o caminho não tem volta – o diabetes instalado e ponto final - , os médicos se preocupam com aqueles pequenos que são pré-diabéticos. Para ter idéia, cerca de 70% dos pacientes obesos atendidos no Instituto da Criança do Hospital das Clínicas de São Paulo estão nessa faixa intermediária. “Eles têm resistência à insulina, estão a um passo de se tornarem diabético pra valer. Mas algumas medidas preventivas ainda podem evitar que a doença surja”, diz o endocrinologista Durval Damiani, chefe da unidade de Endocrinologia pediátrica da instituição. Ele faz questão de lembrar: quanto mais cedo o diabete chega à vida do indivíduo,maiores as chances de complicações no futuro, como pressão alta, aterosclerose, derrame e infarto, além de danos nos nervos e na retina. Quem desejaria um futuro tão amargo para qualquer criança?
Existem crianças, claro, com uma predisposição genética para ganhar peso – aquelas que inflam com alguns brigadeiros a mais na festinha. No entanto, segundo a professora Cristina Pereira Gaglianone, coordenadora do curso de nutrição do Campus Baixada Santista da Universidade Federal de São Paulo, até mesmo para elas algumas medidas preventivas podem fazer total diferença. “Não falo em dieta, até porque essa é uma palavra que remete à proibição”, avisa. “Só acho que a alimentação da família deve voltar a ser o mais natural possível, à base de arroz, feijão, carnes magras, verduras, legumes, frutas e leite desnatado.”
O.k.,assim como seus colegas, Cristina reconhece que mudar os hábitos de uma criança pode não ser nada fácil. “É preciso ser um expert em negociação”, reconhece. “Mas seu objetivo deve ser deixar a comida de fast food e refrigerantes para os fins de semana e os doces só para festas e ocasiões nitidamente especiais. Guloseimas como bolachas recheadas devem ser limitadas a poucas vezes por semana e sempre em porção menores”, resume.
Todo esforço à mesa poderá cair por terra, porém, se a prática de uma tividade física não se tornar regular. O ideal – como sempre em matéria de emagrecimento – são os exercícios aeróbicos, ou seja, nadar, pedalar, correr, caminhar, dançar, jogar futebol. Nada que uma hora de brincadeira ao ar livre já não favoreça. “A atividade física pode ser feita no clube, no quintal, no parque e até mesmo na área de lazer do condomínio”, nota a endocrinologista Lidiane Perlamanga, de São Paulo.
Estabeleça uma rotina junto à criança, com horário para estudo, descanso, brincadeiras ao ar livre ou prática de esportes e, aí sim, horário liberado para o resto. “A artimanha de reservar o espaço para brincadeiras e esportes na agenda garante o tempo necessáriopara movimentar o corpo e tostar calorias, diminuindo a disponibilidade para a TV,o videogame...”, diz a especialista.
Fique de olho apenas em algumas ciladas. Exemplos clássicos: deixar o garotão devorar aquela sanduíche de 600 calorias de pois de uma aula de natação ou fechar os olhos para o fato de a filha comer uns três bombons enquanto estuda só porque suou no uniforme de balé. Aí, já viu... Também não é preciso radicalismo: perder de 5 a 10% do peso já melhora muito o aproveitamento da insulina no organismo da meninada, reduz o colesterol ruim e os triglicérides e aumenta o colesterol bom (HDL). Ou seja, normaliza todos os fatores capazes de desencadear o diabete mais cedo.
O CAMINHO DA BOA ALIMENTAÇÃO
Refrigerante: rico em açúcar, ele é pura caloria. Pior que não tem nutrientes nem fibras. Melhor acostumar a criança a só consumir essa bebida em ocasiões especiais. Um copo tem 136 calorias mais ou menos.
Hambúrguer: em geral bem gorduroso, tem cerca de 580 calorias, mais do que um adolescente perde em um treino de natação no clube. Sem contar que costuma ser engolido vorazmente, em minutos – o que não favorece a saciedade. A tendência é comer além da conta na mesma refeição.
Batata frita: frituras são muito calóricas e, em geral, pobre em nutrientes. Melhor que seu filho não se acostume com elas.
Frutas, verduras e legumes: contêm vitaminas, fibras e minerais. Devem marcar presença em todas as refeições.
MAMADEIRA FORTIFICADA ALIMENTA FUTUROS PNEUZINHOS
O leite materno é insubstituível, principalmente para bebês muito miúdos
Acredite: bebê que nasce com baixo peso tem tudo para se tornar obeso. É que seu organismo estoca qualquer pingo de energia para assegura o desenvolvimento. Sem desconfiar disso, os pais apelam para saídas desesperadas – alguns chegam a oferecer leite de vaca na mamadeira engrossado com farinha! Para piorar, tomam essa medida bem na fase em que o corpo da criança está definindo o número de células adiposas que terá pelo resto da vida. “Se houver mais calorias disponíveis do que o necessário, a quantidade dessas células terminará bem maior”, diz a endocrinologista infantil Liliane Oerlamagna, também do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas de São Paulo. E, quanto mais células adiposas para serem infladas, maiores as chances de engordar na vida adulta.
MENINADA NA CORDA BAMBA
Os fatores nos quais os pais devem prestar atenção
Peso: ninguém melhor para avaliar se o seu filho está dentro dos parâmetros de normalidade do que o pediatra. Atenção: o famoso Índice de Massa Corporal (IMC) não serve para os pequenos, que ainda estão crescendo. E nunca é demais lembrar que uma criança acima do peso ao longo do primeiro ano de vida tem o dobro de chance de ser obesa quando adulta. Já o jovem que está gordo bem no início da puberdade tem seis vezes mais chance de se tornar um adulto obeso.
Sedentarismo: crianças e adolescente sdevem praticar uma atividad física, no mínimo,cinco vezes por semana. Não precisa ser a clássica aula de esportes. Pode ser a velha e boa brincadeira de bola ou correr.
Histórico familiar: há, sim, certa herança de família nessa história toda de diabete tipo 2. Portanto, se você está gordo e/ou tem essa forma de diabete, deve cuidar ainda mais de seus filhos. Fique mais ligado ainda se houve diabete gestacional, já que essa criança provavelmente acumulou depósitos de glicose durante a gravidez.
Acantose: são manchas amarronzadas que costumam aparecer nas dobras do pescoço e na nuca. Ainda não se sabe por quê, mas muitas vezes elas sinalizam alterações hormonais e resistência à insulina.
Sete em cada dez crianças obesas precisam emagrecer voando: elas estão a um passo de se tornarem diabéticas.
COMO DETECTAR O DIABETE TIPO 1
Ele é ainda mais comum entre as crianças brasileiras
Caracterizado pela falência total do pâncreas, costuma aparecer entre os 5 e 7 anos ou na puberdade. Procure um médico se seu filho apresenta um dos sinais a seguir:
Perda de peso sem motivo ou se aparenta não estar se desenvolvendo – Afinal, apesar deter o açúcar de sobra em circulação, ele não entra nas células, que ficam minguando. Sem contar que o organismo perde líquidos. Tudo isso leva à perda de peso e à dificuldade para se desenvolver.
Vontade freqüente de fazer xixi – O diabético tipo 1 urina bastante porque é como se o organismo tentasse lavar do sangue o excesso de açúcar.
Sede excessiva – Para repor o líquido que sai pela urina, o jeito é beber água.
Cansaço – As fibras musculares não são abastecidas de energia, já que a insulina não consegue botar a glicose ali dentro. E vem a fadiga.
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